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sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Comigo - Zeca Baleiro

Quando o sol se vai a lua amarela
Fica colada no céu, cheio de estrela
Se essa lua fosse minha
Ninguém chegava perto dela
A não ser eu e você
Ah, eu pagava prá ver
Nós dois no cavalo de ogum
Nós juntos parecendo um
Na lua, na rua, na nasa, em casa
Brasa da boca de um dragão...

Você vai comigo aonde eu for
Você vai bem, se vem comigo
Serei teu amigo e teu bem
Fica bem, mais fica só comigo...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Homenagem

QUASE NADA

De você sei quase nada
Pra onde vai ou porque veio
Nem mesmo sei
Qual é a parte da tua estrada
No meu caminho

Será um atalho
Ou um desvio
Um rio raso
Um passo em falso
Um prato fundo
Pra toda fome
Que há no mundo

Noite alta que revele
Um passeio pela pele
Dia claro madrugada
De nós dois não sei mais nada

De você sei quase nada
Pra onde vai ou porque veio
Nem mesmo sei

Qual é a parte da tua estrada
No meu caminho

Será um atalho
Ou um desvio
Um rio raso
Um passo em falso

Um prato fundo
Pra toda fome
Que há no mundo

Se tudo passa como se explica
O amor que fica nessa parada
Amor que chega sem dar aviso
Não é preciso saber mais nada

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Bosque

Busquei para enterrar de novo
uma raiz da árvore defunta:
e me parecia que no ar
aquela cabeleira dura
era a dor do que é passageiro
e quando coloquei na terra
estremeceu como se fosse a mão
e outra vez, talvez, esta vez,
voltou a viver com as raízes.

Eu sou desse povo perdido
embaixo do sino do mundo:
eu não necessito dos olhos
a sede determina a pátria
e a água cega que me nutre.

Então, do bosque já liberto
extraí o bem desenterrado
pela tempestade ou a idade:
olhei para cima e pra dentro
como se tudo me espreitasse:
não podia me sentir só,
o bosque contava comigo
para seus trabalhos profundos.

E quando cavei me miraram
os cotilédones com olhos,
os epitétalos hipóginos,
as drupas de íntimo contato,
as emigrantes avez açores,
os notófagos inclementes.

Examinavam a quietude
das minhas mãos ferruginosas
que cavavam de novo a cova
para raízes ressuscitadas.

O narciso, mais o tremoceiro
empinavam-se sobre o barro
até as folhas e nos olhos
do raulí que me examinava,
do maitén puro e estremecido
com suas grinaldas de água verde:
aquele irresponsável silêncio
como um mordomo que é vazio
sem ferramenta nem linguagem.

Ninguém sabe que profissão
de obstinado nas raízes
entre os elementos que rangem
e os que silvam mais repentinos,
e quando os girassóis, homógamos
constroem seus cubos genésicos
e toda a selva vaginal
é uma adega perfumada,
e vou e venho salpicando
umas constelações de pólen
no silêncio tão poderoso.

Pablo Neruda